domingo, 22 de fevereiro de 2026



Ela aprendeu a sorrir quando ele entrava, como quem aprende um segredo perigoso. Sorria para disfarçar o peso no peito, para que ninguém percebesse que aquele riso tinha dono e que o dono não era dela.
Amar em silêncio é como segurar água nas mãos, por mais que se tente, escorre por entre os dedos. 
Ela amava-o nos detalhes na forma como ele inclinava a cabeça ao ouvir alguém, no jeito como a olhava, na voz que parecia abraço. Mas cada gesto que a encantava era oferecido a outra pessoa. E isso magoava-a de um jeito manso e constante, como uma chuva fina que nunca cessa.
Não havia promessas quebradas, nem palavras duras. Havia apenas a ausência. A ausência de um olhar que demorasse um segundo a mais. A ausência de uma mensagem inesperada. A ausência de qualquer sinal de que, em meio ao mundo inteiro, ele a escolhesse.
Era amiga, era porto seguro, era riso compartilhado. Mas não era amor. E saber disso doía mais do que qualquer rejeição declarada. Porque não havia o que contestar, não havia o que lutar. O coração dele já tinha endereço, e ela morava noutra rua.
À noite, deitada, conversava com o próprio silêncio. Perguntava-se quando o sentimento deixaria de arder. Tentava convencer-se de que amar também é querer a felicidade do outro, mesmo que essa felicidade não a inclua. Mas havia dias em que a generosidade pesava, e ela só queria ser escolhida.
No fundo, ela sabia que precisaria partir, não necessariamente ir embora, mas afastar o coração aos poucos, recolher os sonhos que construiu sozinha. Porque continuar ali era ferir-se todos os dias com a esperança de um milagre que nunca foi prometido.
E, em silêncio, ela chorava um amor bonito demais para ser vivido e duro demais para ser esquecido.

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"Desaprender para aprender. Deletar para escrever em cima.
Houve um tempo em que eu pensava que, para isso, seria preciso nascer de novo, mas hoje sei que dá pra renascer várias vezes nesta mesma vida. Basta desaprender o receio de mudar"